
Há tempos, eu tenho me irritado um pouco com as pessoas que usam a palavra “literalmente” para coisas que não são literais. Eu achava que era só impressão minha, mas ficou cada vez mais comum. Sério, faça um exercício. Na última semana, eu passei a reparar com mais atenção. E vejam só três frases que eu anotei:
– Naquele dia, depois daquela derrota, meu mundo literalmente acabou. (Dita por um antropólogo)
– O Rafael Nadal está uma patrola. Ele literalmente patrolou os adversários. (Dita por um médico)
– Ele literalmente arrancou uma universidade do governo francês. (Dita por um professor)
Gentém, não é povo ignorante que tá falando. Olha também esta notícia da globo.com.
Eu achei que era a única a notar, mas comentei com minhas irmãs mais novas, e a de 12 anos disse que os coleguinhas e até as professoras vivem fazendo isso. E, recentemente, descobri esta comunidade no Orkut. Aderi.
Atualização:
Olha só que legal. Meu post foi citado em outros dois, aqui e aqui. Com eles, eu descobri que a implicância com o uso do “literamente” de forma “não-literal” vem do início do século passado, entre os puristas da língua inglesa:
Literally for Figuratively. “The stream was literally alive with fish.” “His eloquence literally swept the audience from its feet.” It is bad enough to exaggerate, but to affirm the truth of the exaggeration is intolerable. (item da “lista negra de falhas literárias” de “Write it Right” (1909))
Mais do que isso, provoquei uma análise no campo da lingüística (área que pouco estudei na faculdade de Jornalismo, mas que muito me interessa). Emanuel acha que, como um “desenvolvimento natural do uso dessa expressão”, o “literalmente” vai continuar sendo usado para dar ênfase a algo, mesmo que seja uma afirmação no sentido figurado, e ser perfeitamente aceitável. Concordo com ele, apesar de achar que outras tantas palavras poderiam ser usadas antes para dizer a mesma coisa – Emanuel, eu também implicaria com o uso do “realmente”, apesar de não escutá-lo tanto quanto o “literalmente”.
Quando eu disse que não é gente ignorante que usa dessa forma, quis deixar claro que não é gente que desconhece o sentido original da palavra – os que ignoram esse significado poderiam usar por repetição, já que o uso se tornou banal.
Sendo purista, clichê e prescritivista (quem diria?), continuarei implicando com o uso abusivo do “literalmente” para ênfases. Mas imagino que os dois acadêmicos das letras concordam comigo que, pelo menos notícia da globo.com linkada no meu post, o uso está errado (em qualquer um dos sentidos possíveis).
Foto do Flickr de pitecus