August 13, 2007

Os mortos de Nyarubuye eram, temo dizer, lindos. Não havia como negar isso. O esqueleto é uma coisa maravilhosa. O caráter fortuito das formas, a estranha tranqüilidade de sua rude exposição, aqui o crânio, ali o braço dobrado num gesto indecifrável – essas coisas eram belas, e sua beleza só aumentava a afronta do lugar. Eu não conseguia me fixar em nenhuma reação sensata: repulsa, alarme, tristeza, dor, vegonha, imcompreensão, tudo isso, claro, mas nada que fizesse realmente sentido. Eu só olhava, e tirava fotos, porque eu me perguntava se teria realmente podido ver o que eu estava vendo enquanto estava vendo, e também porque eu desejava uma desculpa para olhar um pouco mais de perto.

Atravessamos a primeira sala e saímos pela outra porta. Havia outra sala, e outra, e outra, e outra. estavam todas cheias de corpos, e mais corpos estavam espalhados no capim, e havia crânios esparsos no capim; que era espesso e maravilhosamente verde. de pé do lado de fora, escutei um ruído de trituração. O velho coronel canadense tropeçou à minha frente, e vi que, sem que ele notasse, seu pé pisara sobre um crânio, quebrando-o. Pela primeira vez em nyarubuye, meus sentimentos entraram em foco, e o que eu senti foi uma pequena mas feroz raiva daquele homem. então eu ouvi um ruído, e senti uma vibração sob o pé. Eu havia pisado em um, também.

Nas páginas 19 e 20, Philip Gourevitch deixa claro que Gostaríamos de informá-lo de que amanhã seremos mortos com nossas famílias não é um livro para corações (e estômagos) fracos.

July 16, 2007

os últimos dias de Hitler

Um livro que eu li durante as férias (sim, lá em abril) foi No Bunker de Hitler, de Joachim Fest. Quem assistiu A Queda!, com o ótimo Bruno Ganz no papel do bigodinho, deve ter ouvido falar da obra, que inspirou o filme.

O lance do livro (que acaba sendo também o do filme) é contar os bastidores da queda do Terceiro Reich. A maior parte das cenas se passam dentro do bunker de Hitler, e os personagens principais são aqueles que serviam ao Füher. As descrições de Fest, baseadas em relatos e pesquisas em documentos, correspondências e diários, são maravilhosas. Em alguns momentos, é possível ouvir os diálogos, ver as expressões de angústia, sentir os odores do bunker.

Mesmo sem chances de vitória, Hitler não cogita a rendição. Fest descreve os ataques de fúria de Hitler, e o crescimento de sua paranóia megalomaníaca até o suicídio. Enquanto o império desmorona, o leitor acompanha os atos desesperados da cúpula nazista, as intrigas e o jogo de poder dentro do próprio bunker.

O livro também traz várias fotos dos personagens históricos citados no texto e esquemas que explicam como funcionava o bunker. As maiores dificuldade na leitura, para mim, foram nomes e cargos de personagens, datas e, especialmente, localização dos eventos. Em alguns momentos, gostaria de ter um mapa da Alemanha para poder entender os avanços e recuos das tropas durante a guerra, além de uma lista com os nomes e fotos de cada um dos homens de Hitler.

October 5, 2006

Mais perto do paraíso

Não percam essa matéria publicada hoje em Zero Hora: Bento XVI vai acabar com o limbo.

Guardarei um recorte para todo o sempre.

August 14, 2005

Mês do cachorro louco

Estou novamente de plantão na noite de sábado, quando um senhor liga para o jornal e diz:

– Queres a manchete do jornal de segunda-feira?

Eu já penso que é mais um mala com alguma denúncia fajuta, mas o ouço com toda atenção do mundo.

– Pode falar.
– O que aconteceu com Getúlio Vargas em agosto? (”É um mala mesmo”, penso eu)
– Ele se matou.
– Isso mesmo. E com o Jânio, no mesmo mês? (”Daqui a pouco eu não consigo mais responder às perguntas do cara”)
– Renunciou.
– Pois é. E com Fernando Collor?
– Impeachment? (respondi sem ter muita certeza)
– E o que vai acontecer com o Lula até o final deste mês?

Esse senhor, que é produtor rural e mora em Porto Alegre, disse ter se dado conta dessas coincidências enquanto tomava um vinho em casa e refletia sobre a crise. Ao terminar de fazer as perguntas e sugerir uma matéria sobre isso, acrescentou:

– É interessante fazer uma pesquisa, vai que Dom Pedro voltou para Portugal em agosto também.

Adoro leitores espirituosos, mas a última pergunta dele ainda está sem resposta. Se as coincidências querem dizer alguma coisa, Lula ainda tem umas duas semaninhas. Vargas se matou no dia 24 de agosto de 1954. Jânio Quadros renunciou em 25 de agosto de 1961. E o a Câmara dos Deputados aprovou a abertura do processo de impeachment de Fernando Collor de Mello em 28 de agosto de 1992 (ele foi afastado mesmo só em 29 de setembro).

Pesquisando sobre o assunto na internet, achei mais esses dois fatos:
* Em 1969, Arthur da Costa e Silva deixou a presidência em 31 de agosto, depois de uma trombose cerebral
* Juscelino Kubitschek morreu em um acidente de carro em 22 de agosto de 1976

Observação : o antenado leitor quis pautar a ZH de segunda. mal sabia ele que o Jornal do Brasil de domingo trazia exatamente este assunto como manchete: “Lula enfrenta os fantasmas de agosto”.

May 31, 2005

É ele mesmo

The Washington Post today confirmed that W. Mark Felt, a former number-two official at the FBI, was “Deep Throat,” the secretive source who provided information that helped unravel the Watergate scandal in the early 1970s and contributed to the resignation of president Richard M. Nixon.