Os mortos de Nyarubuye eram, temo dizer, lindos. Não havia como negar isso. O esqueleto é uma coisa maravilhosa. O caráter fortuito das formas, a estranha tranqüilidade de sua rude exposição, aqui o crânio, ali o braço dobrado num gesto indecifrável – essas coisas eram belas, e sua beleza só aumentava a afronta do lugar. Eu não conseguia me fixar em nenhuma reação sensata: repulsa, alarme, tristeza, dor, vegonha, imcompreensão, tudo isso, claro, mas nada que fizesse realmente sentido. Eu só olhava, e tirava fotos, porque eu me perguntava se teria realmente podido ver o que eu estava vendo enquanto estava vendo, e também porque eu desejava uma desculpa para olhar um pouco mais de perto.
Atravessamos a primeira sala e saímos pela outra porta. Havia outra sala, e outra, e outra, e outra. estavam todas cheias de corpos, e mais corpos estavam espalhados no capim, e havia crânios esparsos no capim; que era espesso e maravilhosamente verde. de pé do lado de fora, escutei um ruído de trituração. O velho coronel canadense tropeçou à minha frente, e vi que, sem que ele notasse, seu pé pisara sobre um crânio, quebrando-o. Pela primeira vez em nyarubuye, meus sentimentos entraram em foco, e o que eu senti foi uma pequena mas feroz raiva daquele homem. então eu ouvi um ruído, e senti uma vibração sob o pé. Eu havia pisado em um, também.
Nas páginas 19 e 20, Philip Gourevitch deixa claro que Gostaríamos de informá-lo de que amanhã seremos mortos com nossas famílias não é um livro para corações (e estômagos) fracos.
- jornalismo, história, livros | Time: 4:22 am Comentários (2)
