
Quando me apaixonei por Hole in My Soul (faixa do CD Nine Lives, do Aerosmith), lá no final dos anos 90, nem passava pela minha cabeça pegar um avião para ver aquela banda americana que estudamos na aula de inglês no Cultural. A partir desse primeiro encantamento com a turma de Steven Tyler, descobri que tantas outras músicas legais – como Crazy, Cryin’, Dream On – também eram daqueles caras.
Nessa época, dividindo a paixão com colegas de colégio, passei a comprar todos os discos da banda, um a um, garimpando promoções da Multisom com o dinheiro da mesada. Meu sonho de consumo passou a ser a Box Of Fire, uma caixa que reunia os primeiros álbuns, com um livrinho de fotos e tudo mais (que acabei ganhando quando fiz 18 anos, em 2001). Por algumas vezes, rolavam boatos de que eles viriam ao Brasil, nunca concretizados.
Passada a euforia da adolescência, quase não escutava mais meus CDs do quinteto de Boston. Mas quando ouvi dizer que havia a possibilidade (dessa vez bem real, ao que parecia), não tive dúvidas de que faria o possível para vê-los. Na semana passada, como os poucos leitores deste blog já sabem, me mandei para São Paulo com apenas um objetivo: ver, o mais perto possível, o bocão de Tyler cantando minhas músicas preferidas.
Como provavelmente todos os fãs da banda que estiveram no Morumbi, amei o show e a experiência de tê-lo assistido ao vivo (coisa que, há anos, não tinha mais esperança). Em se tratando de uma banda com quase 40 anos de carreira e muitos sucessos, é quase óbvio dizer que faltaram algumas músicas importantes – como Crazy e Amazing, que formam com Cryin’ a trilogia de clipes com Alicia Silvertone. Mas o setlist, publicado no post anterior, contemplou as quatro décadas de hits da banda.
No telão, algumas imagens de clipes e apresentações da banda. Na abertura do show, uma bandeira do Brasil, fazendo um grau com o público.
Durante todo o show, Tyler foi simpático. Falou ao público algumas vezes, largando os tradicionais “Obrigado, São Paulo”. E não parou um minuto no palco. Cantou, dançou, correu pra lá e pra cá. De chapéu, óculos escuros e lenço no pescoço, cantou fazendo caras e bocas (e que boca!). Joe Perry, um dos guitarristas, ousou fazer perguntas em inglês e ainda comentou que esperava mesmo um “sim” para a pergunta “Como vocês estão se sentindo?”. No final da última música, se jogou em cima da bateria depois do solo.
O momento mais emocionante viria com uma balada, claro. Enquanto Tyler cantava Cryin’, isqueiros e celulares brilhavam na platéia. Em seguida, eles engataram uma das minhas preferidas, What It Takes. Aí foi também o meu maior momento de emoção (confesso: eu chorei do final de uma até a metade da outra).
Uma plataforma que ia até o meio da platéia – a uns 12/15 metros de onde eu estava – encurtou a distância entre banda e público. No momento blues da noite, com Baby Please Don’t Go, Stop Messin’ Around e Seasons of Wither, Tyler e Perry sentaram por ali, bem pertinho da turma do gargarejo.
O público foi pouco empolgado na hora de pedir o bis (até mesmo os que estavam perto de mim, muitos do fã-clube oficial). A banda voltou, mas tocou apenas uma música: Walk This Way. Depois de quase duas horas, tinha terminado o show que eu sonhava em ver há anos. Das minhas músicas preferidas, faltou justamente a responsável pela minha primeira paixão pela banda, Hole in My Soul, mas foi, sem dúvida, o show da minha vida. Agora sim, morrerei feliz, muito feliz.
Foto do Flickr de DaigoOliva